O fim das divisões rígidas de gênero na perfumaria

Narração com IA disponível no vídeo.

Durante muito tempo, fomos condicionados pela indústria da perfumaria a associar cheiros a papéis fixos: notas florais e adocicadas seriam destinadas às mulheres, enquanto acordes amadeirados ou cítricos estariam reservados aos homens. Essa distinção era reforçada não apenas no líquido, mas também nos frascos, nos nomes e nas campanhas publicitárias. Um perfume “para ela” geralmente vinha em vidro delicado, com cores suaves, tons rosados e mensagens românticas; já o “para ele” aparecia em frascos robustos, em tons de azul ou preto, carregando promessas de força e poder.

Hoje, porém, esse modelo de classificação vem perdendo espaço. Uma nova geração de consumidores entende o perfume como ferramenta de expressão pessoal e não como um marcador de gênero. O crescimento das fragrâncias chamadas de “sem gênero” não pode ser reduzido apenas a uma jogada de marketing: trata-se de uma mudança cultural que amplia a liberdade de escolha.

Raízes históricas

É importante lembrar que a ideia de perfumes masculinos e femininos é relativamente recente. Em várias civilizações antigas, como a egípcia ou a romana, perfumes eram usados em rituais religiosos, práticas de higiene ou como símbolos de status, sem necessariamente seguirem regras de gênero. A divisão mais rígida ganhou força sobretudo a partir do século XX, quando grandes marcas perceberam o potencial de segmentar o mercado com narrativas específicas de masculinidade e feminilidade.

A matéria-prima não tem gênero

Apesar do discurso publicitário, perfumistas sempre souberam que os ingredientes não carregam identidade de gênero. Uma flor branca, como o jasmim, pode trazer delicadeza em uma criação suave ou adicionar profundidade a uma composição intensa. Da mesma forma, um toque de couro pode ser a ideia central de um perfume masculino, mas também conferir uma sensualidade ousada e moderna a uma fragrância feminina. A verdadeira arte da perfumaria sempre esteve na combinação de notas, e não em sua categorização como “masculina” ou “feminina”.

Novos consumidores, novas expectativas

A mudança de direção foi acelerada por uma geração que valoriza a autenticidade e a fluidez. Para eles, perfumes não precisam obedecer a rótulos “masculino” ou “feminino”: a escolha é guiada pela emoção que a fragrância desperta e pela forma como ela se conecta à identidade pessoal. Perfume, nesse sentido, é uma linguagem íntima de autoexpressão.

A estética da neutralidade

A revolução também se reflete no design. Frascos de perfumes sem gênero costumam ser minimalistas, com linhas limpas e cores neutras, como transparente, preto, branco ou metálico. As embalagens evitam os excessos que antes funcionavam como sinalizadores de gênero. Já a publicidade, em vez de apresentar estereótipos do que é beleza, mostra pessoas reais, com diferentes identidades de gênero, usando o mesmo perfume. O foco se deslocou do apelo sexual para o apelo emocional, celebrando a individualidade e a liberdade. A narrativa não é mais sobre conquistar ou seduzir, mas sobre se conectar com uma memória, um sentimento ou uma sensação.

O crescimento dos perfumes sem gênero é um reflexo de uma sociedade que está se tornando mais inclusiva e menos rígida em suas definições binárias. O que já foi considerado um nicho de mercado hoje se aproxima cada vez mais da norma. Muitas casas tradicionais, conhecidas por coleções segmentadas, já apresentam linhas compartilháveis ou abandonam as divisões nos lançamentos recentes.

Um novo olhar sobre escolhas olfativas

Essa transformação representa um avanço significativo para a perfumaria contemporânea. Ao eliminar barreiras rígidas, o perfume se torna mais democrático e acessível: a decisão passa a depender apenas da experiência sensorial e emocional de quem o usa.

No final das contas, o cheiro de um perfume não sabe o que é “masculino” ou “feminino”: ele existe para ser sentido e apreciado. Por isso, você pode descobrir uma fragrância compartilhável da In The Box ou até escolher um perfume tradicionalmente classificado como masculino ou feminino, mesmo que não corresponda ao seu gênero. O que importa é a conexão única que ele cria com você.

Escrito por Ítalo Pereira – Influencer e expert em perfumaria