Fougère no século XXI: da tradição às novas interpretações

Narração com IA disponível no vídeo.

A perfumaria vive um movimento contínuo de transformação. Famílias olfativas que atravessaram décadas continuam presentes, mas ganham novas interpretações à medida que matérias-primas, moléculas e técnicas de composição ampliam as possibilidades dos perfumistas.

Entre essas famílias está o fougère, historicamente associado às fragrâncias masculinas e uma referência importante para compreender a evolução da perfumaria. Ao longo de mais de um século, o fougère passou por diferentes interpretações, transitando entre construções clássicas, referências de barbearia, propostas verdes, especiadas, amadeiradas e versões mais contemporâneas. 

Essa capacidade de transformação ajuda a explicar a presença do fougère na perfumaria contemporânea.

Fougère: de onde vem esse nome?

A palavra francesa fougère significa “samambaia”. O nome está diretamente relacionado ao Fougère Royale, lançado pela Houbigant em 1882 e assinado pelo perfumista Paul Parquet.

O termo não significa que a fragrância reproduza literalmente o cheiro de uma samambaia. Na perfumaria, passou a identificar uma estrutura olfativa tradicionalmente associada à combinação de notas aromáticas, cítricas, verdes e amadeiradas.

Fougère Royale tornou-se um marco ao combinar matérias-primas naturais e sintéticas em uma composição que incluía elementos como lavanda, bergamota, gerânio, musgo de carvalho e, principalmente, cumarina. Essa construção ajudou a estabelecer as bases do estilo fougère.

A partir desse marco, o fougère passou a ser reinterpretado por diferentes perfumistas ao longo das décadas, mantendo alguns de seus elementos característicos enquanto incorporava novas combinações e estilos.

A cumarina e a construção de Fougère Royale

Um dos elementos historicamente mais relevantes de Fougère Royale é a presença da cumarina.

Encontrada naturalmente na fava tonka e também obtida de forma sintética, a cumarina teve papel importante na construção da fragrância. Com perfil adocicado e características que podem lembrar feno e fava tonka, ela contribuiu para criar um contraste com elementos mais frescos, verdes e aromáticos.

Em Fougère Royale, sua presença ao lado de lavanda, bergamota, gerânio e musgo de carvalho ajudou a estabelecer uma estrutura que se tornaria uma referência para a família fougère.

Mais do que depender de uma única matéria-prima, portanto, a identidade do fougère passou a estar relacionada ao equilíbrio entre diferentes elementos olfativos.

Como surgiu a associação com a estética barbershop?

Com o passar das décadas, o fougère ganhou novas interpretações e passou a ocupar um espaço importante na perfumaria masculina e em produtos relacionados ao barbear.

Lavanda, ervas aromáticas, cítricos, madeiras e musgo são alguns dos elementos que ajudaram a aproximar determinadas construções fougère da estética conhecida como barbershop.

Os dois conceitos, porém, não são sinônimos. Barbershop representa uma estética olfativa frequentemente associada ao frescor de produtos tradicionais de barbear, enquanto fougère corresponde a uma família e a uma estrutura olfativa com uma história própria.

Os fougères que marcaram as décadas de 1970 e 1980

A partir da década de 1970, o fougère masculino passou a explorar composições mais intensas e estruturadas.

Lavanda, ervas aromáticas, musgo de carvalho e madeiras continuaram presentes, mas passaram a aparecer combinados a especiarias, tabaco, âmbar, couro e facetas adocicadas.

Essas interpretações ampliaram o perfil do fougère, mantendo suas referências verdes e aromáticas, mas acrescentando maior profundidade e presença.

Como elementos associados ao fougère ganharam interpretações mais quentes e adocicadas?

Na década de 1990, referências tradicionais da perfumaria masculina começaram a aparecer com mais frequência ao lado de acordes quentes, cremosos e adocicados.

A lavanda, por exemplo, passou a dividir espaço com notas como baunilha, fava tonka, especiarias e madeiras, criando contrastes diferentes daqueles encontrados nos fougères mais clássicos.

Esse movimento mostra como elementos historicamente associados à família passaram a participar de composições mais sensuais e adocicadas, ampliando as possibilidades da perfumaria masculina.

Como o fougère é interpretado atualmente?

Na perfumaria contemporânea, o fougère pode assumir diferentes formas. Sua estrutura histórica continua sendo uma referência, mas pode ser combinada a ervas aromáticas, cítricos, especiarias, madeiras, vetiver, notas ambaradas, couro, musk e acordes mais modernos.

Lavanda, gerânio, alecrim, musgo e outras referências tradicionais podem permanecer presentes, mas aparecem inseridos em construções mais atuais.

Assim, uma estrutura surgida no século XIX continua sendo reinterpretada de acordo com novas matérias-primas, técnicas de composição e diferentes estilos olfativos.

O verde como caminho para novas interpretações

As facetas verdes e aromáticas continuam tendo papel importante em muitas interpretações do fougère.

Lavanda, sálvia, alecrim, hortelã, gerânio e outras matérias-primas podem aparecer combinadas a madeiras, especiarias, musgo, vetiver, notas ambaradas ou acordes mais adocicados.

Por isso, um fougère pode apresentar desde um perfil fresco e aromático até características mais quentes, amadeiradas, especiadas ou profundas.

Essa diversidade contribui para que a família continue sendo reinterpretada sem permanecer restrita a uma única época ou estética.

O fougère também ultrapassou a perfumaria masculina

Embora sua história esteja fortemente ligada à perfumaria masculina, elementos característicos do fougère também passaram a aparecer em fragrâncias femininas e propostas compartilhadas.

Lavanda, ervas aromáticas, madeiras, musk e outras matérias-primas tradicionalmente presentes nessa família podem assumir diferentes leituras de acordo com a composição.

Essa transformação mostra como referências antes fortemente associadas a determinados estilos ou públicos passaram a integrar propostas mais diversas na perfumaria contemporânea.

Por que o fougère continua relevante?

Uma das características mais marcantes do fougère está justamente em sua capacidade de transformação.

Sua consolidação como família olfativa está historicamente ligada a Fougère Royale, lançado em 1882, e a elementos que se tornaram referências para essa estrutura, como lavanda, bergamota, gerânio, musgo de carvalho e cumarina.

Ao longo das décadas, essas referências passaram a ser combinadas a ervas, especiarias, madeiras, couro, notas ambaradas, baunilha, musk e outros recursos da perfumaria moderna.

Da estrutura pioneira de Fougère Royale à estética barbershop, passando pelas interpretações mais intensas das décadas de 1970 e 1980 e pelas composições contemporâneas, o fougère mostra como uma família histórica pode acompanhar as transformações da perfumaria sem perder completamente suas referências de origem.

Escrito por Ítalo Pereira – Influencer e expert em perfumaria.