Ao longo do tempo em que escrevo para vocês, já percorremos diferentes caminhos dentro do universo da perfumaria. Mas existe um tema que quase sempre desperta debates mais intensos entre apaixonados por perfume: a diferença entre fragrâncias clássicas e modernas.
Seria fácil começar listando exemplos de perfumes que se encaixam em cada categoria. No entanto, sem antes entender o que realmente define esses termos, qualquer discussão corre o risco de se tornar superficial.
A base histórica da perfumaria
Para compreender essa diferença, é importante olhar para a história da perfumaria ocidental, especialmente aquela desenvolvida na Europa entre os séculos XVI e XX. Embora hoje associemos automaticamente a perfumaria à França, esse protagonismo foi sendo construído ao longo do tempo.
Durante a Idade Média, o uso de fragrâncias na Europa era mais restrito e frequentemente associado a práticas medicinais, rituais ou questões simbólicas. Ao mesmo tempo, regiões como o Oriente Médio e a Índia já possuíam uma tradição consolidada na produção de perfumes em óleo, com matérias-primas nobres e técnicas refinadas.
Com o avanço das ciências, das técnicas de destilação e das mudanças nos hábitos de higiene, a perfumaria europeia evoluiu. A França, especialmente a cidade de Grasse, tornou-se um grande centro de cultivo de matérias-primas e desenvolvimento de fragrâncias em base alcoólica, consolidando-se como referência mundial.
O que define um perfume clássico
É nesse contexto que começamos a falar de “clássico”. De forma geral, o termo se refere a algo que se torna referência dentro de um gênero, uma criação cuja relevância atravessa o tempo e influencia gerações posteriores.
Na perfumaria, isso não diz respeito apenas às matérias-primas utilizadas, mas principalmente ao impacto que determinadas fragrâncias tiveram na construção do que entendemos como perfume.
Notas como bergamota, limão, lavanda, rosa, jasmim, íris, sândalo, patchouli e âmbar aparecem com frequência em muitas dessas composições. No entanto, o que torna um perfume verdadeiramente clássico não é apenas o uso dessas notas, mas a forma como ele se estabelece como modelo, inspirando inúmeras criações ao longo dos anos.
Perfumes como Chanel Nº5, Shalimar, Poison, Samsara e CK One são exemplos de fragrâncias que ultrapassaram seu tempo. Mais do que populares, eles influenciaram estruturas olfativas inteiras e ajudaram a definir caminhos dentro da perfumaria.
Entre eles, Chanel Nº5 talvez seja o caso mais emblemático. Lançado em 1921, introduziu de forma marcante o uso de aldeídos em uma composição floral, criando uma sensação inédita de difusão e abstratividade. Seu caráter atalcado e levemente ensaboado se tornou uma assinatura amplamente reconhecida e replicada ao longo das décadas.
O que define um perfume moderno
Se o clássico está associado à referência e à permanência, o moderno não deve ser entendido como seu oposto, mas como sua continuação.
Perfumes modernos podem utilizar as mesmas matérias-primas tradicionais, mas reinterpretadas de novas formas. Isso acontece por meio de combinações inéditas, do uso de moléculas sintéticas ou da construção de acordes que exploram facetas pouco convencionais de ingredientes já conhecidos.
O campo do perfume moderno é mais amplo porque não precisa seguir modelos estabelecidos. Ele pode ser experimental, conceitual ou funcional, dependendo da proposta.
Entre experimentação e mercado
No universo mais experimental, encontramos a perfumaria de nicho e ultra nicho, que frequentemente antecipa movimentos, testa limites e propõe estruturas olfativas menos previsíveis. São fragrâncias que nem sempre buscam agradar de imediato, mas expandem o repertório sensorial e criativo da perfumaria, abrindo espaço para novas formas de interpretar o perfume.
Esse mesmo olhar criativo também está presente na IN THE BOX. A marca vem construindo uma perfumaria autoral que explora novas possibilidades olfativas, com propostas que fogem do comum e se aproximam de uma leitura mais sensorial e contemporânea da fragrância.
A coleção Match of Senses é um reflexo claro desta proposta. Desenvolvida a partir da ideia de traduzir sensações em perfume, ela apresenta construções menos óbvias e mais interpretativas, ampliando a forma como a fragrância pode ser percebida.
O reconhecimento desse trabalho também se reflete no Prêmio Atualidade Cosmética, uma das principais premiações da indústria de beleza no Brasil, no qual as fragrâncias Fusion Énigmatique e Sucré Juteux foram premiadas.
Por outro lado, existe também o que podemos chamar de perfumaria moderna funcional. Nesse caso, entram as marcas designer e designer de luxo, que trabalham dentro de códigos já consolidados, mas buscam atualizá-los de acordo com as tendências e demandas do mercado.
Aqui, o objetivo é equilibrar inovação e aceitação, criando perfumes que dialoguem com um público mais amplo.
Clássico e moderno: mais próximos do que parecem
Diante disso, fica claro que clássico e moderno não são categorias opostas, mas complementares. A perfumaria moderna frequentemente revisita estruturas clássicas, enquanto muitos perfumes clássicos continuam relevantes e presentes no repertório contemporâneo.
No fim, a diferença entre um perfume clássico e um moderno está menos no tempo em que foi criado e mais no papel que ele ocupa dentro da história da perfumaria. Um estabelece referências. O outro expande possibilidades.
E é justamente nesse encontro entre tradição e inovação que a perfumaria continua evoluindo.
Escrito por Ítalo Pereira – Influencer e expert em perfumaria






